Há músicas que não cabem só nos ouvidos. Transbordam para as mãos que esculpem, para os pés que pisam a terra, para os rios que carregam canções. A Mostra Melodia e Projeção nasce desse transbordamento: quatro filmes que apontam a câmera para o Brasil que canta e, ao fazê-lo, revelam também o Brasil que resiste, que lembra e recusa o apagamento.
Em 3 Obás de Xangô, a Bahia se projeta pelas ruas, pelo mar, pelo candomblé e pela amizade criadora entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé. Em Amazônia, a Nova Minamata, os rios da Amazônia paraense carregam a luta do povo Munduruku contra a violência do garimpo e da contaminação por mercúrio. Já Luiz Melodia – No Coração do Brasil e Milton Bituca Nascimento percorrem, cada um à sua maneira, trajetórias de artistas que fizeram da música uma forma de liberdade, permanência e reinvenção da alma brasileira.
Das ruas da Bahia aos rios da Amazônia, dos terreiros aos palcos, das memórias preservadas em arquivos às vozes que seguem ecoando, cada frame guarda uma forma de permanência. Os filmes escolhidos nos conduzem a reconhecer que a cultura popular não é somente herança do passado, mas a força presente, capaz de narrar o país em sua profundidade sensível, ancestral e humana.
O documentário retrata a amizade incondicional entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, os maiores responsáveis pela criação de um imaginário de baianidade que persiste até hoje. Os três defendiam que a força de suas obras residia em documentar o que viam nas ruas: a resiliência do povo do candomblé, o poder das mulheres, a onipresença do mar. Os livros de Jorge, as canções de Caymmi e as pinturas e esculturas de Carybé consolidaram um modo de estar no mundo dos baianos e influenciaram as gerações de artistas que vieram depois.
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